sexta-feira, 24 de maio de 2013

ARTIGO: A gestão urbana desde as bases

Por Roberto Ghione*

As estruturas social e urbana e a ocupação do território das cidades brasileiras refletem improvisação, descaso, fragmentação, exclusão e uma persistente ausência de planejamento, cujas consequências se fazem evidentes nos problemas emergenciais que hoje as afetam.

A implementação de programas de desenvolvimento urbano parciais, sujeitos aos tempos políticos de quatro anos, impedem formular uma planificação de longo prazo, instrumento eficaz para a organização social e urbana. A persistência de uma consciência vertical e autoritária, continuidades anacrônicas de coronelismo usineiro, cafeteiro e cacaueiro, tem subordinado o desenvolvimento das cidades (ou melhor, a falta de) aos interesses setoriais em conluio com o poder político de turno.

As complicações que tomam conta do uso cotidiano das cidades e a evolução da sociedade para melhores níveis de esclarecimento - favorecido pelas políticas de distribuição de renda menos desigual - tem criado consciência acerca dos direitos e oportunidades que estimulam a participação social na busca por uma cidade com níveis mínimos de dignidade e qualidade de vida urbana. É possível constatar a existência de movimentos organizados de participação, favorecidos pelas redes sociais, que tendem a transformar as decisões unilaterais e autoritárias em discussão e procura de consenso acerca do direito à cidade democrática, integrada e inclusiva.

O Estatuto das Cidades, sancionado em 2001, é um instrumento legal que contempla a organização social e do espaço territorial, ainda insuficientemente aproveitado. A necessidade e obrigatoriedade de formular planos diretores esbarra em legislações abstratas, carentes de uma visão integral de configuração efetiva do espaço urbano e de integração social. A necessidade de elaborar projetos de cidade orientadores da legislação surge como objetivo prioritário, que supera a aplicação indiscriminada e fragmentada de leis burocráticas e tecnocráticas.

 O projeto de cidade, entendido como processo de integração dos desejos e interesses da sociedade organizada desde suas bases, para definir estratégias de ação que determinam as intervenções no espaço físico, se estabelece como recurso de gestão apto para uma construção coletiva com objetivos de longo prazo.

Implementar os mecanismos de gestão pactuada com visão de longo prazo constitui o desafio das atuais administrações municipais, com o intuito de superar as políticas de visão estreita, pautadas pelos interesses setoriais dentro dos tempos políticos limitados e limitadores.

As experiências bem sucedidas em cidades que deram a volta por cima da decadência social e urbana (Bogotá e Medellín na Colômbia, Rosario na Argentina), precisamente com aportes de planejamento de longo prazo, participativo, com ampla ingerência  da sociedade organizada, são exemplos demonstrativos de processos possíveis de serem adaptados às realidades de muitas cidades brasileiras.

A sociedade brasileira, através das entidades organizadas, tem a oportunidade de participar da Conferência das Cidades - foro criado pelo Ministério das Cidades, que procura consolidar parcerias entre governos e sociedade civil para construir modelos de política urbana com participação dos municípios - para debater e reclamar por efetivas políticas de desenvolvimento integrado com o território, qualificação da vivência social urbana, direito à cidades dignas desde as bases, em um processo de baixo para cima, democrático e participativo, em substituição da imposição autoritária de soluções que o próprio processo de urbanização tem demonstrado desiguais e excludentes.

A qualidade de vida urbana integrada e inclusiva, em defesa do interesse geral, é um objetivo que deveria marcar as ações das gestões municipais em prol do benefício social integrador, inclusive para os grupos empresariais, que com ações inteligentes em prol da qualificação urbana, podem lucrar mais ao inserir seus empreendimentos em contextos urbanos dignos e qualificados.

As cidades brasileiras encontram-se em um momento histórico, fervilhante de propostas ainda autoritárias determinadas pela pressão de grupos de poder, e a correspondente resistência de uma sociedade cada dia mais esclarecida, consciente dos direitos e oportunidades que as predispõem para assumir um destino melhor em contextos urbanos qualificados.

*Roberto Ghione é arquiteto e Diretor do IAB/PE

O espaço do blog é aberto a temas que tenham a ver com a arquitetura, cidade ou arte/arquitetura. Necessariamente não expressam a opinião do Instituto mas são de responsabilidade de seus autores.


quarta-feira, 22 de maio de 2013

Seminário Q+50 chega a São Paulo para discutir a gestão das cidades


A gestão das cidades será o tema da edição São Paulo do Seminário de Política Urbana Q+50, que será realizada na Biblioteca Municipal Mário de Andrade, na próxima segunda-feira, 27 de maio. Promovido pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), o seminário, que terá transmissão ao vivo, via internet, no site do IAB, debaterá os sistemas de planejamento, os planos diretores estratégicos, o desenho urbano e a governança metropolitana.

Para o presidente do IAB, Sérgio Magalhães, o Q+50 SP vai ampliar a reflexão dos arquitetos brasileiros sobre a gestão das cidades, tema importante para o desenvolvimento das cidades e metrópoles, mas pouco debatido entre os profissionais.

“O Q+50 SP poderá oferecer uma reflexão sobre a dimensão metropolitana das grandes cidades, que hoje não é tratada institucionalmente, e sobre a importância da criação de um vínculo mais forte entre a representação política, a gestão e o território. No sistema eleitoral atual, a relação entre essas representações é muito fraca”, explica Sérgio Magalhães.

De acordo com o presidente do Departamento de São Paulo do IAB, José Armênio de Brito Cruz, o Q+50 SP será uma oportunidade para se debater o papel dos marcos regulatórios e seus reflexos na gestão das cidades. “O que pretendemos é discutir como os planos diretores e os diversos instrumentos de regulação estão contribuindo para melhorar a qualidade de vida nas cidades”, afirma.

O evento terá como principal conferencista o arquiteto uruguaio Mariano Arana, ex-senador do Uruguai e ex-prefeito de Montevidéu. Arana coordenou o bem-sucedido plano de requalificação do centro histórico da capital uruguaia, que se tornou referência mundial. O arquiteto tem condecorações como a Medalha de Ouro da Federación Panamericana de Asociaciones de Arquitectos (FPAA), em 1999, e é Professor Honoris Causa da Università di Ferrara (Itália) e da Universidad de la República Oriental del Uruguay.

A discussão será estimulada ainda por uma mesa-redonda e um painel institucional. A primeira atividade, que será mediada pela arquiteta paulista Angélica Alvim, com o tema “Marcos regulatórios e transformação da cidade”, contará com as participações de João Whitaker, arquiteto, urbanista e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP); José Police Neto, vereador na Câmara Municipal de São Paulo; e Regina Meyer, arquiteta, urbanista e professora da FAUUSP. 

Já o painel institucional “Gestão metropolitana/urbana e projetos/desafios atuais”, será conduzido pela arquiteta Fabiana Izaga, com participação do arquiteto e urbanista Fernando de Mello Franco, secretário de Desenvolvimento Urbano da Cidade de São Paulo; do arquiteto e urbanista Nabil Bonduki, vereador na Câmara Municipal de São Paulo; e de Renato Pires de Carvalho Viégas, diretor presidente da Empresa Paulista de Desenvolvimento Metropolitano.

O Q+50, evento comemorativo de 50 anos do histórico Seminário Nacional de Habitação Urbana, realizado no Hotel Quitandinha (Petrópolis, RJ), visa a reforçar decisivamente a agenda política das cidades e das metrópoles brasileiras. 

O ciclo de eventos já passou pelo Rio de Janeiro e pelo Rio Grande do Sul. No Rio de Janeiro, em fevereiro, o evento teve como tema “Arquitetura, Cidade, Metrópole”, e contou com a participação de nomes como o urbanista italiano Bernardo Secchi e o escritor indiano Suketu Mehta, autor de “Bombaim: Cidade Máxima”. Na cidade de Rio Grande (RS) em abril, os arquitetos discutiram “A Moradia Brasileira”, com destaque para as apresentações do arquiteto e urbanista Sérgio Magalhães, presidente do IAB e ex-secretário municipal de Habitação do Rio de Janeiro, e da cientista política Natália Carnovale, coordenadora de projetos estratégicos do Gabinete Municipal de Rosário (Argentina).

Depois de São Paulo, o Seminário Q+50 passa por Brasília, Minas Gerais, Bahia e Amazonas. 



Confira a programação:

27 de maio | segunda-feira

14h-15h
Recepção e Credenciamento dos Participantes
15h – 15h30
Cerimônia de Abertura

Haroldo Pinheiro
Presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil - CAU-BR

Sérgio Ferraz Magalhães
Presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil - IAB

José Armênio de Brito Cruz
Presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil – IAB  São Paulo

15h30 – 17h
Mesa Redonda
Marcos Regulatórios e Transformação da Cidade
Mediação Angélica Alvim

João Whitaker
Arquiteto e Urbanista, Professor da FAUUSP

José Police Neto
Vereador na Câmara Municipal de São Paulo


Regina Meyer
Arquiteta e Urbanista, Professora da FAUUSP

17h – 18h45
Painel Institucional 
Gestão Metropolitana/Urbana e Projetos/Desafios Atuais
Mediação Fabiana Izaga

Fernando de Mello Franco
Arquiteto e Urbanista, Secretário de Desenvolvimento Urbano da Cidade de São Paulo

Nabil Bonduki
Arquiteto e Urbanista, Vereador na Câmara Municipal de São Paulo

Renato Pires de Carvalho Viégas
Diretor Presidente da Empresa Paulista de Desenvolvimento Metropolitano – Emplasa

19h – 20h30
Conferência

Mariano Arana
Arquiteto e Urbanista, ex-prefeito de Montevidéu


terça-feira, 21 de maio de 2013

ARTIGO: Minha Cidade Minha Vida

Por Humberto Hickel

Os movimentos de protestos desencadeados em Porto Alegre nos últimos tempos evocam lembranças na história das cidades. Na Grécia Antiga, primórdios da democracia, a maior vergonha para um cidadão era ser banido da cidade, já seu maior orgulho era morrer por ela. 

No curso da História muita coisa mudou, embora viver na cidade continue sendo uma questão de vida ou morte. O sujeito é seduzido pela cidade, atraído pela vida e o movimento que ali acontece, quando se estabelece nota que a cidade não é aquilo o que se vê da janela. Ator e plateia ao mesmo tempo, o tempo todo, onde eventualmente um grupo se rebela na plateia e reivindica seu papel de protagonista  e vai às ruas.

Assustados, aqueles das classes dominantes se socorrem de grupos armados se perpetuam em cena. Quando saem, após trocar o cenário, construindo viadutos – verdadeiras pontes urbanas – e entronizando o automóvel, escondem suas pegadas, deixam a luz acesa e a conta para os próximos.

Após este período, que alguns classificam como “Ditadura Branda” segue um outro onde é permitido um  maior número em cena, embora o teatro seja grande o palco é pequeno e uns tantos fiquem na plateia.  É o custo para quem almeja a vida urbana, mas não é ruim de todo, pois a cada espetáculo ganham brindes jogados  do palco junto com as ilusões.

Atualmente já não se brinda mais tanto  mas,  as ilusões são fartas e distribuídas televisivamente, ou através de um aparelhinho que cabe na palma da mão, não tem quem não o tenha. É o que podemos chamar de “Democracia da Ilusão”.

Outro aparelho, este também de uso individual e um tanto maior, vem enaltecendo o protagonismo de seu usuário, embora ainda não seja para todos, segue sendo facilitada sua aquisição. Por ele se destrói o que há de melhor na cidade, se retoma uma antiga forma de urbanismo – as “cirurgias urbanas”, e uma nem tão antiga tradição: a imposição à Cidade de obras de interesses restritos e de eficácia duvidosa.

Agora a plateia indignada pede protagonismo e ameaça invadir o palco caso não seja escalada. Tem contra si todo o aparato que ampara o poder, hoje com outra arma mais poderosa, muito persuasiva e que se alimenta da lógica do capital. Contra ela contrapomos nossos ideais de cidade, não morreremos por ela como os antigos gregos, mas nos municiamos de toda a poesia que a situação requer e que a linhagem deles desconhece. Não é hora de baixar o pano ainda.


Arquiteto e Urbanista
Vice-Presidente do IAB-RS

segunda-feira, 20 de maio de 2013

IAB-DF lança concurso para o projeto do novo Complexo Administrativo do Estado do Maranhão


Objetivo é reformar complexo de 22.880 m² e criar novas edificações com até 13.500 m². Prêmio para o vencedor é de R$ 70 mil

A Secretaria de Estado e Gestão e Previdência (Segep/MA) e o Departamento do Distrito Federal do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB/DF) lançam nesta terça-feira (23) o concurso público nacional para a contratação de projeto executivo de arquitetura e complementares para o Centro Político e Administrativo do Governo do Estado do Maranhão. As inscrições vão até 5 de junho.

Segundo o edital da competição, os concorrentes deverão projetar a reforma do complexo de 22.880 m² de área construída e criar novas edificações com até 13.500 m² de área construída. O local fica na Avenida Jerônimo de Albuquerque, S/N, Ed. Clodomir Millet, no bairro de Calhau, em São Luís.

Os arquitetos e/ou engenheiros têm plena liberdade de proposta, respeitadas as determinações legais e programáticas, bem como apresentadas as informações gerais e determinantes da implantação da obra, do sistema construtivo, das instalações prediais e especiais, tudo de maneira a demonstrar a viabilidade técnica do empreendimento.

O vencedor levará um prêmio de R$ 70 mil, além de um contrato no valor de
R$ 3.826.952,00 para a execução do projeto. Já o segundo e terceiro lugares ganharão, respectivamente, R$ 30 mil e R$ 20 mil.

A divulgação do resultado do concurso será no dia 15 de julho. Para mais informações, clique aqui.
Fonte: piniweb.com.br

Universidade da China lança concurso para estudantes


A Escola de Arquitetura da Universidade de Tianjin (China), a União Internacional dos Arquitetos (UIA) e a revista Urban Environment Design anunciaram um concurso internacional para estudantes de arquitetura com o tema "O desaparecimento da arquitetura". Diz o texto de apresentação do concurso: "Por trás do radicalismo dessa afirmação, está algo crucial para o futuro da arquitetura. A arquitetura como disciplina deve não mais pensar em objetos. Paredes, fachadas e estruturas são apenas modalidades de arquitetura, mas não a sua finalidade. O desenho vem depois. Depois de quê? Depois das situações. Arquitetos lidam com situações."

Os participantes devem realizar projetos de 4 mil metros quadrados, sem limitações de tipos de arquitetura, que levem em conta as necessidades da arquitetura urbana contemporânea e deem atenção aos diferentes tipos de espaço para grupos distintos. A terreno do projeto deve ser em área desafiadora, com características urbanas distintas. O júri é presidido pelo arquiteto francês Dominique Perrault. Os vencedores recebem premiação em dinheiro e uma viagem à China, além da oportunidade de trabalhar em estúdios locais de arquitetura.

As inscrições podem ser feitas até o dia 30 de junho de 2013, e o prazo final para envio do material é 15 de agosto.

As incrições podem ser feitas no site oficial do concurso. Clique aqui.

Fonte: IAB